Jantar Secreto


Número de Páginas: 360
Editora: Companhia Das Letras
Autor: Raphael Montes






E eis que eu resolvi me aventurar de novo em um livro do Raphael Montes mesmo prometendo a mim mesma que não faria isso após as experiências não tão boas que tive anteriormente (minha opinião, a maioria das pessoas adora os livros dele). Mas como minha curiosidade é maior que tudo, principalmente se tratando de temas polêmicos, não resisti. 


Jantar Secreto conta a história de 4 jovens amigos nascidos em uma cidadezinha do Paraná que foram estudar no Rio de Janeiro e tentar a vida lá. Alguns anos já se passaram desde a mudança e a vida está longe de ser como gostariam. Os cursos que escolheram na faculdade não lhes rendeu o emprego dos sonhos e eles estão dando duro para conseguirem apenas pagar o aluguel do apartamento que dividem e manter as contas em dia. 

Porém, o aluguel acaba atrasando e eles estão com uma dívida grande e correndo o risco de serem despejados. Buscando alternativas para conseguirem o dinheiro, acabam envolvendo-se com a possibilidade de oferecem jantares com carne humana. A partir daí, entram em um caminho sem volta. 


De todos os livros do autor, esse foi o que mais gostei até agora. Acho que sua escrita evoluiu e a narrativa tornou-se mais envolvente. Estava gostando bastante da história no começo e do seu tom de realidade, com as dificuldades enfrentadas pelos amigos na busca de uma vida melhor nesse mundo tão competitivo de hoje em dia. Porém, os mesmos problemas que eu tive com os livros anteriores estavam presentes nesse. 

Uma das coisas que mais me incomodam nas histórias é motivação fraca para atitudes extremas. Não que nunca possa acontecer algo parecido...é só ligar a TV para ver inúmeros casos de pessoas que fizeram coisas terríveis por nada. Mas quando estou lendo um livro, quero conseguir entrar de cabeça no que está sendo contado e acreditar naquilo, mas mais uma vez não aconteceu. Não é como se servir carne humana fosse a única forma que eles tivessem de conseguir dinheiro. 

Também não gosto de como tudo dá totalmente certo nos livros do Raphael Montes. Sério, como alguém carrega um cadáver ensanguentado pelo elevador do prédio em plena luz do dia sem ninguém ver ou deixar nenhum rastro?! Para não falar de tantos outros absurdos que aconteceram. 

Há uma crítica do autor em relação ao consumo de carne e como nós podemos ser hipócritas e fechar os olhos para determinadas situações e nos indignar com outras semelhantes. Para reforçar seu ponto de vista, ele escreveu passagens pesadas e violentas, então já fica aqui um aviso. Mas a parte dos jantares em si eu não achei tão forte assim. 

Quando é que as crianças descobrem que aquilo que a mãe delas coloca no prato é tipo a Peppa Pig? Quando é que percebem que assamos e comemos a Galinha Pintadinha? E como é que elas não ficam indignadas com isso?

Um dos personagens, o Leitão, é obeso mórbido e a todo tempo os amigos (?) se referem a ele das formas mais pejorativas possíveis envolvendo o seu peso. Não sei se isso foi colocado como uma crítica, porque às vezes é bem difícil separar a voz do autor da voz de seus personagens. Mas eu achei que ficou um pouco demais. 

O final não me surpreendeu exatamente porque eu já esperava que ele seria surpreendente. Essa é uma característica de todos os outros livros, então já imaginei que se repetiria nesse e fiquei mais atenta para possíveis pistas ao longo da história. E a partir de uma coisa que aconteceu, bem antes do final, já pude criar minha teoria a respeito do desfecho. 

Apesar dos poréns que tive com o livro, ele me entreteve e não me arrependi de ter lido. Ah, e gostei muito da conversa no Whatsapp entre eles, ri bastante com algumas mensagens. Também achei interessante os poemas que o narrador dizia ter visto na porta de banheiros públicos. Eles se encaixavam bem com algumas partes da história e traziam algumas reflexões, apesar de achar que esse recurso foi usado em demasia (acho que 15 vezes se minhas contas estiverem certas). 

Para quem gostou dos outros livros do autor ou está curioso para conhecê-lo (e consegue ler temas mais pesados), acho que será uma boa leitura.

Certa vez, num banheiro público, havia um poema:
"qualquer coisa
pode ser poesia se
você der
enter de vez em
quando. "