Resenha: Para sempre Alice

by - janeiro 23, 2016


Alice sempre foi uma mulher de certezas. Professora e pesquisadora bem-sucedida, não havia referência bibliográfica que não guardasse de cor. Alice sempre acreditou que poderia estar no controle, mas nada é para sempre.Perto dos cinquenta anos, Alice Howland começa a esquecer. No início, coisas sem importância, até que ela se perde na volta para casa. Estresse, provavelmente, talvez a menopausa; nada que um médico não dê jeito. Mas não é o que acontece.Ironicamente, a professora com a memória mais afiada de Harvard é diagnosticada com um caso precoce de mal de Alzheimer, uma doença degenerativa incurável.Poucas certezas aguardam Alice. Ela terá que se reinventar a cada dia, abrir mão do controle, aprender a se deixar cuidar e conviver com uma única certeza: a de que não será mais a mesma.Enquanto tenta aprender a lidar com as dificuldades, Alice começa a enxergar a si própria, o marido, os filhos e o mundo de forma diferente.Um sorriso, a voz, o toque, a calma que a presença de alguém transmite podem devolver uma lembrança, mesmo que por instantes, e ainda que não saiba quem é.

Número de páginas: 288

Autor: Lisa Genova
Editora: Nova Fronteira
Idioma: português 
Gênero: Drama 


Solicitei esse livro no Skoob quase que por acaso, após ter algumas outras solicitações recusadas. Não sabia muito sobre ele, além do fato de ter um filme e que a protagonista sofria do mal de Alzheimer. Peguei para ler depois de abandonar "A 5ª Onda". Estava precisando de algo um pouco diferente no momento, mais sério, mais profundo. E acho que profundo é a palavra que melhor descreve esse livro. 

Alice Howland é uma brilhante professora de psicologia de Harvard, com um currículo impecável. Ela possui uma rotina agitada, pois sempre é convidada para eventos acadêmicos, com os quais concilia a vida de professora, mãe e esposa. Isso não parece ser muito difícil para ela, até que começa a ter pequenos quadros de esquecimento. Coisas aparentemente normais para qualquer pessoa, como ficar com aquela palavra na ponta da língua ou não lembrar onde estão as chaves do carro. Alice culpa o estresse ou uma possível menopausa e não dá tanta importância assim para o que está acontecendo. Porém, seu estado vai piorando consideravelmente, até que em uma de suas corridas diárias fica perdida a alguns metros da sua casa. 

Alice decide procurar ajuda médica e após uma bateria de exames é diagnosticada com o mal de Alzheimer de instalação precoce. Além de lidar com a doença roubando-lhe as certezas, planos e sonhos para o futuro, ela precisa lutar contra o preconceito e a falta de compreensão de pessoas que ela jamais imaginava que agiriam dessa forma. 


Esse foi um dos livros mais tristes e intensos que eu já li. Apesar de ser narrado em terceira pessoa, ficamos muito próximos do que Alice está sentindo e pensando e sofremos junto com ela a cada pedacinho de memória que é levado pelo Alzheimer. A angústia da personagem era tão palpável que apesar da narrativa ser muito fluída, tive que interromper a leitura várias vezes para me recuperar um pouco. Porém, mesmo enquanto não estava lendo, continuava refletindo sobre tudo que essa história passa e representa.

Eu gostei muito de como as relações com os familiares, amigos e colegas de profissão foram exploradas, mostrando como cada um se comportou diante de sua doença. Fui surpreendida positiva e negativamente pelas atitudes de determinados personagens. Foi muito triste ver que pessoas que ela considerava da família passaram e ver sua presença como um incômodo e algo a ser evitado. Isso me fez pensar no quanto podemos ser descartáveis quando deixamos de atender às expectativas que as outras pessoas têm. 

"Não, não gostariam. Ficarão aliviados por eu não estar presente. Sou um elefante de algodão-doce cor-de-rosa no recinto. Deixo todo mundo constrangido. Transformo o jantar num número maluco de circo, e ficam todos equilibrando a comiseração nervosa e os sorrisos forçados em malabarismos com os copos de bebida, os garfos e as facas. "

Achei muito bonita a maneira com que os filhos, principalmente as filhas a trataram. Todos eram jovens e estavam iniciando as carreiras e/ou as próprias famílias, mas em momento nenhum pensaram em deixar a mãe internada ou aos cuidados de algum estranho para seguirem suas vidas, sem o peso da doença. 

O livro é repleto de trechos fantásticos, mas o discurso que a Alice faz sobre o Alzheimer é um dos textos mais tocantes que eu já li. Eu recomendo a todas as pessoas que leiam esse livro, mas caso não o façam, que pelo menos leiam esse discurso. São apenas 4 páginas, mas as palavras contidas nelas são capazes de nos atingir de muitas maneiras. 

Um dos questionamentos de Alice que eu achei mais interessante foi a respeito do que nos faz sermos nós mesmos. Se o que nos define são nossos neurônios e as sinapses entre eles, ou se existe algo a mais, uma alma. Será que a nossa essência e personalidade ainda existiriam se nossas memórias fossem apagadas, ou iriam embora junto com elas deixando apenas uma casca vazia? 

"Temo com frequência o amanhã. E se eu acordar e não souber quem é o meu marido? E se não souber onde estou nem me reconhecer no espelho? Quando deixarei de ser eu mesma? Será que a parte do meu cérebro que responde por minha personalidade é vulnerável a essa doença? Ou será que minha identidade é algo que transcende neurônios, proteínas e moléculas de DNA defeituosas? Estarão minha alma e meu espírito imunes à devastação da doença de Alzheimer? Acredito que sim". 

Fiquei muito apegada a Alice durante a leitura. Ela é uma personagem muito verdadeira, não alguém criada para ser uma heroína que enfrenta tudo sem fraquejar. Ao mesmo tempo que sua personalidade forte e independente a ajuda a continuar vivendo e lidando com a doença da melhor maneira possível, ela tem suas fragilidades e reconhece isso. 

Há tanto para ser falado sobre esse livro, mas ao mesmo tempo sinto que por mais que eu escreva aqui ainda não será suficiente, então só posso mais uma vez recomendar a leitura! 

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